Globalização… Para alguns

Bangladesh

Países menos desenvolvidos não se beneficiam da globalização

 Esta semana estou triste.  O Ciclone que arrasou Bangladesh, com ventos de até 250 Km/h, me fez refletir sobre um texto que li, há algum tempo, que fala sobre os “Condenados ou Malditos da Terra”, numa referência aos Países mais pobres do Mundo, uma espécie de lista em que é preciso mergulhar fundo na miséria para ingressar nela.  Num mundo globalizado, que corre contra o tempo, tentando prever e deter as mudanças climáticas, que vão afetar de alguma forma a vida de bilhões de pessoas, em todos os continentes, eu hoje me pergunto: É possível indignar-se, tanto e tão definitivamente, com a repetição dessas tragédias anunciadas, a ponto de exigir-se dos países ricos que protejam esses povos, muito depois que os interesses comerciais ali havidos já estarem extintos?  (leia-se colonização e exploração extrativista).

Bangladesh é um País entre rios. Nascido no delta dos rios Ganges e Brahmaputra, depois de anos de colonização inglesa e instabilidades, na partilha política que deu origem ao Bangladesh, os monumentos ficaram na Índia, à exceção de um punhado, espalhado pelo Paquistão. O grande porto de Calcutá, que facilitaria a exportação das poucas produções nacionais – juta, couros e chá – ficou do lado indiano. A língua e, sobretudo, a política e o muro silencioso da religião, com hindus de um lado e muçulmanos do outro, acabaram por dividir muito mais do que fatores geográficos como rios ou cadeias de montanhas. O que sobrou em Bangladesh? Eu diria que sobrou gente.  Um dos países mais populosos do mundo, com mais de 1000 pessoas por km² – é impossível trafegar por mais de 300 metros sem encontrar uma aglomeração de pessoas –  Estima-se 130 milhões de habitantes, podendo ser 150 milhões. Uma população quase igual à do nosso País, no espaço de 144.000 Km². Para se ter idéia, caberiam aproximadamente 59 Bangladesh’s dentro do Brasil.

“Enquanto alguns países se integram e prosperam, outros ficam mais marginalizados e isolados”, alertou a diretora do escritório da ONU para os países menos desenvolvidos, os países em desenvolvimento sem litoral e os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, Harriet Schmidt.   

Esta é a triste realidade dos Países Menos Desenvolvidos. “Enquanto a globalização permitiu, nos últimos 30 anos, ampliar o comércio, aumentar o rendimento econômico e criar uma riqueza global sem igual, os LDC não conseguiram se beneficiar dela”  De acordo com critérios estabelecidos pela ONU, 50 países figuram na categoria de LDC – Least Developed Countries –  países menos desenvolvidos –  25 a mais do que em 1971.  A maioria está na África, mas também constam do relatório nações de Ásia, Oceania e Caribe (apenas o Haiti). A lista inclui Afeganistão, Bangladesh, Eritréia, Etiópia, Gâmbia, Sudão e Mauritânia. Estes países concentram 12% da população mundial e menos de 2% do investimento global direto – a maioria nos setores de hidrocarbonetos e mineração. A situação é ainda mais alarmante no âmbito comercial. A participação dos LDC nas exportações mundiais caiu de 3%, nos anos 50, para 0,7%, na presente década, enquanto que em matéria agrícola essa redução foi de 3,3% para 1,5%, entre os anos 70 e 90.  

Fatores “domésticos” são apontados como responsáveis por impedir que os LDC tirem proveito da globalização, entre eles o analfabetismo, a deficiência ou falta de infra-estrutura, explosão urbana e a desertificação.  

O ex-presidente tanzaniano Benjamin Mkapa acredita que a globalização, regida por instituições fundadas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, teve como objeto e resultado “reforçar a dominação econômica e geopolítica do Norte e preservar seus interesses“. “Eu fiquei menos convencido de que a comunidade internacional, em particular o mundo rico industrializado, seja séria e decidida a cumprir suas promessas (…) de apoiar o desenvolvimento das populações mais pobres da humanidade”, criticou. Sua constatação encontra eco nas declarações do turco Kemal Dervis, à frente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). “Os avanços foram muito fracos, se não nulos”, avaliou. “É frustrante ver aqueles que exaltam o livre-comércio e o mercado liberal tomarem, às vezes, as medidas mais radicalmente protecionistas que bloqueiam completamente todas as oportunidades para os países em desenvolvimento”. De acordo com a presidente da Assembléia-Geral da ONU, Sheikha Haya Rashed Al Khalifa, em referência aos Objetivos do Milênio estabelecidos pelas Nações Unidas em 2000 para combater a fome e a pobreza e àqueles fixados para estes países para o decênio 2001-2010, “os LDCs têm poucas chances de atingir nas datas previstas seus objetivos de desenvolvimento internacional”.

A lista dos países menos desenvolvidos, com menores chances de desenvolvimento, são, em sua maioria, aqueles mesmos países espoliados no passado por colonizadores, hoje chamados, Países desenvolvidos.   

Alguém tem alguma idéia sobre  quem deve ajudar os LDCs à sobreviver, além das migalhas atiradas por eficientes helicópteros, em ajuda “humanitária”?   

Minhas preces e indignação por Bangladesh e mais 49 LDCs, cujo destino parece ser o sofrimento, enquanto o nosso parece ser a indiferença.

 familia.jpgCláudia Costa

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