A Quem interessa o Etanol?

biocombustibles.jpg“Os subsídios para o etanol apontam mais a garantir os votos dos poderosos grupos de pressão agrícolas do que em obter benefícios ambientais”

Por Stephen Leahy, da IPS

Toronto, 24/10/2007 

 Novos estudos revelam que os milhares de milhões de dólares investidos nos Estados Unidos e na Europa para promover os biocombustíveis são uma forma de subsidiar corporações agroindustriais, em lugar de uma resposta efetiva contra o aquecimento global. Não só a maioria dos métodos para produzir combustíveis destilando certos vegetais pouco ajudam a reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pela mudança climática, segundo a maioria dos cientistas, como colher as matérias-primas necessárias requer grande quantidade de água, além de fomentar o uso de pesticidas e provocar desmatamento em países tropicais, dizem esses relatórios.O auge dos biocombustíveis, impulsionado por milhares de milhões de dólares em subsídios governamentais, provocará aumento entre 30% e 40% até 2020 no preço dos alimentos, segundo o não-governamental Instituto de Pesquisa de Políticas Alimentares, com sede em Washington. O milho, a cana-de-açúcar, a soja e a palma são os principais cultivos dos quais se extrai etanol ou biodiesel. “Resumidamente, usar comida para produzir combustíveis é uma idéia estúpida”, disse à IPS Ronald Steenblik, diretor de pesquisas do Global Subsidies Initiative, do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, com sede em Genebra. “É outra forma de subsidiar as grandes corporações agroindustriais e constitui uma manobra para desviar a atenção do problema real, que é reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa”, acrescentou.

Dois novos estudos, dos quais Steenblik é co-autor, destacam que produzir combustível a partir do milho, da soja ou da cana-de-açúcar é incrivelmente caro. Sua análise diz que o apoio governamental atingiu em 2006 US$ 11 bilhões ao ano para os países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne entre seus membros todos os países industriais. Mais de 90% desses subsídios corresponderam aos Estados Unidos e à União Européia, e, segundo o informe, provavelmente chegarão este ano aos US$ 13 bilhões ou US$ 15 bilhões. “Aumentam na medida em que a indústria se expande”, disse Steenblik.

Seria preciso gastar mais de US$ 100 bilhões por ano para alcançar uma proporção de produção de biocombustível equivalente a 25% ou 30% das necessidades do transporte. E esse valor em subsídios teria de ser mantido, já que a indústria depende deles, acrescentou. Esse investimento teria sentido se fosse obtida uma redução importante nas emissões de gases causadores do efeito estufa, mas Steenblik calcula que para produzir a quantidade de etanol necessária para reduzir o equivalente a uma tonelada de dióxido de carbono sejam bastos entre US$ 2.980 e US$ 6.240, segundo o tipo de programa de incentivos aplicado.

Vários estudos demonstram que o impacto ambiental de produzir milho, transportá-lo e convertê-lo em etanol se traduz em uma pequena redução de emissões de gases que provocam o efeito estufa em comparação com os combustíveis fósseis. E em alguns casos os resultados podem ser ainda mais desanimadores. O biodiesel obtido a partir da colza e o etanol de milho podem provocar 70% e 50% mais emissões, respectivamente, do que os combustíveis fósseis, de acordo com um trabalho publicado em setembro pelo ganhador do prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, da Universidade de Edimburgo, junto com seu colega Keith Smith.

Esses pesquisadores determinaram que a destilação desses vegetais libera mais que o dobro do que se supunha até o momento de oxido nitroso, um forte gás causador do efeito estufa, devido ao uso de fertilizantes que contêm nitrogênio. Cerca de 80% do biocombustível da Europa provém da colza, enquanto nos Estados Unidos se usa fundamentalmente o milho para fabricar etanol. “Provavelmente, não oferece nenhum beneficio e,de fato,estão piorando a situação”, disse Smith em declarações à imprensa.

Em janeiro, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fixou uma meta de produção de 132 bilhões de litros de biocombustivies até 2017, mais de cinco vezes o nível atual. Esta meta deixaria várias vias fluviais desse país contaminadas e provocaria grave escassez de água em várias regiões, alertou a Academia Nacional de Ciências dos EUA. O uso adicional de fertilizantes contribuirá para a expansão de plantas aquáticas que produzem “zonas mortas” com as existentes no Golfo do México, diz o informe.

Advertências similares foram feitas pelo Instituto Internacional para Manejo da Água no Sri Lanka a respeito do crescente interesse de China e Índia nos biocombustíveis. Recomendou-se aos dois países que investissem na chamada segunda geração de tecnologia para este tipo de combustível, que se baseia na celulose e não poderá ser comercializado por vários anos.

“Os subsídios para o etanol apontam mais a garantir os votos dos poderosos grupos de pressão agrícolas do que em obter benefícios ambientais”, disse Walter Hook, diretor-exeuctivo do não-governamental Instituto para Políticas do Transporte e o Desenvolvimento, com sede em Nova Yorque.Programas mais simples e baratos, com a imposição de uma taxa para quem dirige veículos na zona central das cidades ou o programa aplicado em Paris para fomentar o uso da bicicleta reduzem as emissões de forma imediata e com um custo muito baixo, disse Hook em uma entrevista. Essa iniciativa foi colocada em prática em julho na capital francesa, com a oferta de milhares de bicicletas alugadas a um preço baixo (os primeiros 30 minutos são gratuitos). Milhões de viagens foram feitas nos primeiros 17 dias. “É assombroso. Todas as cidades deveriam pensar em fazer algo assim”, acrescentou.

Uma agência de publicidade fornece as bicicletas gratuitamente, administra o sistema e retorna para a cidade todo o lucro, além de US$ 4,3 milhões por ano em troca do controle exclusivo de todas as telas de publicidade na via pública. O especialista em transporte canadense Todd Alexander Litman demonstrou que os combustíveis mais eficientes e menos contaminantes têm como resultado o fato de as pessoas usarem mais os automóveis. “Ocorrem mais congestionamentos de trânsito, mais acidentes, aumenta o custo do estacionamento e deixa sem opções quem não tem carro”, afirmou.

Litman propõe alternativas para reduzir o tráfego entre 30% e 50% que incluem transformar as áreas urbanas em zonas mais próprias para pedestres e a criação de ciclovias. Nenhuma delas exige a produção de mais biocombustíveis. “Subsidiá-los é uma bobagem”, disse à IPS. Já o relator especial da Organização das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, Jean Ziegler, enfatizou que incrementar a produção de biocombustíveis será “um desastre total” para as pessoas que sofrem fome.

Existe o sério risco de criar uma batalha entre combustível e alimento que deixará os pobres e famintos das nações em desenvolvimento à mercê dos rápidos aumentos no preço da comida, da terra ou da água”, afirmou Ziegler ao falar em agosto na Assembléia Geral da ONU. Na próxima quinta-feira, Ziegles vai pedir às Nações Unidas que adote uma proibição por cinco anos da conversão de terras com o objetivo de dedicá-las à produção de biocombustíveis.

Apesar destas evidencias, os governos continuarão dedicando milhares de milhões de dólares para fomentar sua produção, afirmam alguns. “Raramente se deixa de lado um subsidio. Esperamos que os países cheguem a um acordo nos próximos anos”, disse Steenblik.

(Envolverde/ IPS) 

 

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Concentração de CO2 tem aumento recorde

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Como se as recentes previsões do IPCC (o painel do clima das Nações Unidas) sobre o aquecimento da Terra não fossem pessimistas o suficiente, um grupo de cientistas do Reino Unido afirmou ontem que elas já estão defasadas: o aumento da concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera terrestre cresceu 35% desde o ano 2000 -uma aceleração sem precedentes.Isso significa que, se a tendência for mantida, todos os efeitos previstos da mudança climática se farão sentir mais cedo e de forma mais aguda.
Em estudo publicado na edição de hoje da revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA (www.pnas.org), o grupo afirma que a taxa de crescimento do CO2 atmosférico foi de 1,93 parte por milhão (ppm) por ano entre 2000 e 2006. Nos anos 1990, essa taxa era de 1,49 ppm ao ano.

Hoje, a concentração de gás carbônico na atmosfera é de 381 partes por milhão, o que já representa um aumento brutal em relação aos níveis pré-industriais: em 1750, o nível de CO2 no ar era 280 partes por milhão. Nunca antes, nos últimos 650 mil anos, essa cifra havia sido ultrapassada.

O gás carbônico é o principal responsável pelo efeito estufa, nome dado à retenção do calor irradiado pela Terra por uma capa de gases na atmosfera. A aceleração do efeito estufa por atividades humanas, em espacial a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e derivados) e o desmatamento, é a principal causa das mudanças climáticas que o planeta sofre.

O novo estudo indica que a humanidade está acelerando rumo a uma concentração de CO2 considerada perigosa: a partir de 450 ppm, dizem os cientistas, será virtualmente impossível limitar o aquecimento adicional do planeta a 2C até 2100, nível considerado mais seguro.Causa tripla
A aceleração a partir de 2000 tem três causas principais. Primeiro, as emissões cresceram de forma acelerada, especialmente no Terceiro Mundo (leia-se China), que se desenvolve à custa do uso intensivo de petróleo e carvão.

Depois, a chamada intensidade energética -ou total de carbono emitido por dólar produzido no PIB- cresceu nos últimos anos. Ou seja esses países estão se desenvolvendo de forma cada vez mais suja, usando o combustível fóssil mais poluente (e barato), o carvão. Por fim, os “ralos” naturais de que a Terra dispõe para escoar o carbono produzido pela humanidade, em especial os oceanos, parecem estar esgotando sua capacidade.

“Nós não estamos no caminho em que pensávamos estar em termos do controle do aquecimento global”, disse Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), co-autora do estudo. O grupo de Le Quéré analisou dados sobre o gás carbônico atmosférico obtidos a partir de 1959, e os comparou com as tendências atuais.

Eles descobriram que as projeções feitas no final dos anos 1990 subestimaram as emissões decorrentes do uso de energia em até 17%.

Em meio a tanta notícia ruim, o estudo traz um dado positivo para o Brasil: as emissões decorrentes do desmatamento na América do Sul caíram de 900 milhões para 600 milhões de toneladas de carbono por ano. Uma queda que o Brasil ameaça compensar aumentando, como tem feito, a fatia do carvão na sua matriz energética. 

Folha de São Paulo – 23/10/2007

Quando é bom parar – Reflexão

“Nada destrói mais os seculares mecanismos de equilíbrio que a natureza pacientemente estabeleceu, do que a voracidade com que abocanham-se os recursos naturais.”

Leia mais do excelente texto do Luiz Eduardo Cheida no Blog Folha Verde, da Mercedes Lorenzo

Desmatamento Zero!

 

Ambientalistas de nove organizações não-governamentais lançaram uma proposta, na semana passada, em Brasília para acabar com o desmatamento na Amazônia em sete anos.

A iniciativa, chamada Pacto Nacional pela Valorização na Amazônia, prevê metas progressivas de redução, a começar por 25% no primeiro e no segundo anos, e ampliando anualmente as reduções em relação à área desmatada de 2005/2006, até eliminar totalmente o problema no sétimo ano.

O plano foi apresentado numa sessão da Câmara de Deputados, na qual estavam presentes a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e autoridades dos Estados amazônicos, incluindo o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi.

Metas de redução

1º ano: 25%

2º ano: 25%

3º ano: 30%

4º ano: 40%

5º ano: 50%

6º ano: 75%

7º ano: 100%

Fonte: Imazon

O coordenador de projetos da ONG Imazon, Paulo Barreto, diz que a proposta tem mais chance de ir adiante do que outras que não saíram do papel porque “inova” ao prever mecanismos de compensação econômica para quem se beneficia do desmatamento.

“O sucesso vai depender da parte econômica da equação, da rapidez e da escala em que vamos conseguir implementá-los. Se (os que ganham com os desmatamento) tiverem alguma compensação, eles vão aderir à idéia.”

Um dos mecanismos mais simples, segundo ele, seria oferecer ao dono de uma área que ainda tem direito a desmatar uma parte dela os R$ 100 por hectare/ano que ele ganharia ao derrubar a floresta.

Para que esses mecanismos fossem adotados de forma eficaz, seria preciso firmar um contrato com o proprietário e adotar uma fiscalização extensiva, por meio de acompanhamento por satélite.

R$ 1 bilhão

A Imazon e as outras ONGs que apóiam a proposta estimam que financiar esses mecanismos e a infra-estrutura inicial para implementá-los exigiriam R$ 1 bilhão por ano, que poderiam ser pagos pelo governo e pela iniciativa privada.

Segundo Paulo Barreto, cerca de metade disso poderiam ser levantada simplesmente redirecionando recursos que já são aplicados na Amazônia. “É uma decisão política”, disse Barreto.

Com esse compromisso de investimento inicial, diz o ambientalista, o país teria “mais autoridade” para buscar recursos externos.

“O desafio agora é ter articulação para garantir esse fundo (de R$ 1 bilhão).”

O coordenador de projetos da Imazon também acredita que o momento seja favorável à adoção do plano – do ponto de vista interno, porque a maior responsável pelo desmatamento, a pecuária, atravessa um momento ruim.

Para Barreto, o cenário internacional também ajuda, na medida em que as discussões sobre as formas de mitigar o aquecimento global ganham importância, com a aproximação da reunião da ONU sobre o clima, em dezembro, em Bali.

O ativista diz acreditar que o Brasil possa se beneficiar da “economia do carbono”, referência ao mecanismo que prevê que países que queiram extrapolar suas metas de cortes de emissões “comprem” créditos de carbono de países que poluam menos.

Para que isso aconteça, porém, Barreto reconhece que esse mercado precisa ser estimulado por tratados internacionais que estabeleçam as metas.

“O debate sobre o clima e as compensações internacionais são chave. Se o debate da proteção das florestas não entrar nas discussões de como mitigar as mudanças climáticas, o Brasil vai ficar sem oportunidade”, disse Barreto.

O ambientalista enfatiza que, excluídos aqueles que se beneficiam de forma imediata do desmatamento, as atividades que estão por trás da derrubada das florestas – agropecuária, principalmente – não compensam o dano ambiental que provocam no país.

“75% da emissões de gás carbônico vêm do desmatamento e isso contribui muito pouco para a economia total. É uma forma ineficiente para gerar desenvolvimento.”

Segundo Barreto, uma floresta que tenha 300 toneladas de mata por hectare vai liberar cerca de 150 toneladas de CO2 na atmosfera, se desmatada.

Apóiam a iniciativa as ONGs Instituto Socioambiental, Greenpeace, Instituto Centro de Vida, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, The Nature Conservancy, Conservação Internacional, Amigos da Terra-Amazônia Brasileira, Imazon e WWF-Brasil.

 

Wangari Maathai – Plantando a Paz nas Florestas da Africa

Roberto Villar Belmonte*

A árvore é um símbolo de paz na África. Em diversas comunidades, ainda sobrevive uma antiga tradição. Quando há um conflito, a pessoa mais velha planta uma árvore entre os dois lados em disputa. Este cerimonial sinaliza o início da reconciliação entre as partes. Foi esta herança cultural – ecológica e pacifista – a inspiração para Wangari Maathai, 65 anos, iniciar no Quênia, em 1977, o Movimento Cinturão Verde.

Educada nos Estados Unidos e na Alemanha, a professora de anatomia animal da Universidade de Nairobi não tirava da cabeça o que vinha testemunhando desde criança. Árvores substituídas por lavouras comerciais, como ocorre agora na Amazônia. O desflorestamento do Quênia destruiu boa parte da biodiversidade e reduziu a capacidade das florestas de conservar água, um recurso bastante escasso na região.

Para mudar aquela situação, Wangari Maathai começou uma campanha de esclarecimento com grupos de mulheres mostrando que árvores deviam ser plantadas. Aos poucos, elas foram percebendo que o plantio gerava emprego, combustível, comida, abrigo, melhorava o solo e ajudava a manter as reservas de água. Nas últimas três décadas, as mulheres do Quênia plantaram mais de 30 milhões de árvores.

O trabalho de conscientização foi difícil. “O nosso povo foi historicamente persuadido a acreditar que, por ser pobre, também não tinha conhecimento e capacidade para enfrentar os seus próprios problemas. E esperavam soluções de fora. As mulheres não conseguiam perceber que para atender às suas necessidades básicas era preciso um meio ambiente saudável e bem manejado”, recorda a professora Wangari Maathai.

A sua militância pacífica pela recuperação ambiental das florestas africanas foi reconhecida mundialmente em dezembro de 2004 quando ela recebeu em Oslo, na Noruega, o Prêmio Nobel da Paz. “Eu acredito que a solução para a maioria dos nossos problemas vem de nós mesmos”, ensina a professora e ativista Wangari Maathai, que hoje luta para cancelar a dívida externa dos países pobres.

A família humana, na avaliação da Prêmio Nobel da Paz de 2004, tem que enfrentar um fato muito grave: o meio ambiente é fundamental para alcançar a paz. Quando ele está degradado, as pessoas sofrem, pois não têm os recursos necessários para sobreviver. É preciso compartilhar os recursos naturais de forma eqüitativa para reverter a distribuição injusta de recursos que atualmente existe no mundo. 

Na África, relata Wangari, existem muitos conflitos por recursos naturais escassos e degradados. As pessoas lutam pelo que restou de terra, água, pastos e florestas. Para resolver estes graves conflitos, que estão gerando milhões de refugiados ecológicos em todo o planeta, a professora do Quênia defende uma consciência cada vez maior sobre três questões: sensibilidade ambiental, um bom governo democrático e paz.

 “Nós plantamos árvores para proteger o solo, prevenir a erosão, fazer as pessoas entenderem que a terra é um recurso natural importante. Quando o vento e a água produzem erosão, a terra está perdida para sempre. Mostramos para as pessoas que o solo onde elas plantam é fundamental para ter boas colheitas. As árvores também são uma fonte de energia para a maioria das populações rurais”, ressalta Wangari. 

A presidente do Movimento Cinturão Verde faz uma conta. Como cada pessoa emite gás carbônico, ela necessitaria plantar pelo menos dez árvores para zerar o seu impacto ecológico no planeta. “Por isso eu sempre insisto neste ponto: plantem pelo menos dez árvores!”, enfatiza a queniana também engajada na campanha dos quatro erres: reduzir, reutilizar, reciclar e reparar.

Wangari Maathai e as mulheres do Movimento Cinturão Verde tentam banir do Quênia as sacolas de plástico finas, pois elas não podem ser reutilizadas. No Japão, ela está engajada em uma campanha chamada MutaiNai para conscientizar as pessoas sobre a necessidade de respeitar e agradecer pelos recursos naturais. Por onde anda, a professora do Quênia dedica a sua vida à construção de uma paz ecológica.

Cientista e ativista

A professora Wangari Muta Maathai nasceu em 1940 na cidade de Nveri, no Quênia, e foi a primeira mulher a obter um título de Doutora no Leste e no Centro da África. Em 1964 ela graduou-se em Ciências Biológicas no Mount St. Scholastica College em Atchison, no Kansas (EUA). Dois anos depois concluiu o mestrado na Universidade de Pittsburgh. Depois de realizar o doutorado na Alemanha, Wangari obteve Ph.D na Universidade de Nairobi onde lecionou anatomia animal.

De 1976 a 1987, Wangari participou ativamente do Conselho Nacional da Mulher do Quênia onde começou a mobilizar grupos de mulheres em torno da campanha para o plantio de árvores. Mais de 30 milhões de árvores já foram plantadas através do Movimento Cinturão Verde (www.greenbeltmovement.org). Em 1998, ela passou a defender o cancelamento da dívida externa dos países pobres da África. Atualmente, a Prêmio Nobel da Paz 2004 trabalha no Ministério do Meio Ambiente do Quênia.

“Corremos um risco enorme”

A Prêmio Nobel da Paz de 2004, Wangari Maathai, concedeu uma entrevista coletiva no dia 14 de outubro para jornalistas ambientais de 32 países reunidos em Monte Porzio Catone, a 40 quilômetros de Roma. A seguir trechos da conversa com os repórteres presentes no III Fórum Internacional de Mídia “Meio ambiente, caminho de paz” promovido pela Associação Cultural Greenaccord.

Pergunta: O consumo excessivo dos recursos naturais é um estilo de vida imposto pela nossa cultura ocidental e reforçado pelos meios de comunicação. É possível mudar esta tendência de hiper-consumo?

Wangari: Eu creio que precisamos elevar o nível da nossa consciência moral, voltar a ter uma perspectiva ética em relação aos recursos naturais e às outras criaturas. O problema é que ainda achamos que os nossos recursos durarão para sempre. Sem elevar o nosso nível de consciência ética, não poderemos entender que esse nível de vida tão elevado para poucos em detrimento de muitos não pode seguir adiante. No meu país, o Quênia, pelo menos 10% das pessoas vivem desperdiçando recursos porque querem imitar o nível de vida do mundo rico. Os recursos não são suficientes. Os países ricos exploram os recursos naturais dos pobres, e os poucos ricos dos países pobres fazem o mesmo. A nossa forma de lutar contra a pobreza é lutar contra esta forma de hiper-consumo não apenas no mundo industrializado, mas também nos países em desenvolvimento onde lamentavelmente estamos copiando o mundo rico em detrimento do nosso povo. Se seguirmos por este caminho, corremos um risco enorme.  

Pergunta: Como garantir dignidade aos refugiados ecológicos que cada vez mais migram dos países devastados do Terceiro Mundo para a Europa e Estados Unidos?

Wangari: É muito difícil para um ser humano sentar e ficar sofrendo até a morte. Quando ele percebe que pode procurar uma vida melhor em outro país, ele migra. É preciso solidariedade e compaixão com estas pessoas que buscam um lugar melhor para viver. Mas é preciso também garantir condições para que estas pessoas possam viver nos seus próprios países com dignidade. É por isso que eu defendo o cancelamento da dívida externa para permitir investimentos locais que possam melhorar a economia dos países pobres dando mais condições de trabalho às populações.

Pergunta: Como evitar a atual destruição florestal na África?

Wangari: Recentemente eu fui chamada a ajudar na luta contra a destruição da floresta do Congo, a segunda maior do planeta depois da Amazônia. A questão é que não temos recursos suficientes para impedir a devastação. Tem muita pobreza no meu continente, mas a África não é pobre, tem muitas riquezas no solo e nas selvas. Os países desenvolvidos exploram os nossos recursos sem qualquer escrúpulo. A exploração madeireira no Congo está destruindo a biodiversidade. A culpa é também dos nossos líderes africanos. Eles permitem que isto aconteça porque querem copiar o mundo desenvolvido. A imprensa não deveria falar só dos aspectos negativos do continente africano, mas nos ajudar a mobilizar a população e os nossos líderes.

Pergunta: Diante de tantos problemas ambientais, a senhora mantém o otimismo?

Wangari: Eu sempre sou otimista. Eu acordo pela manhã e sinto que tenho muitas razões para viver. Vivemos em um planeta que é único. O maior problema que temos é a ignorância. Tem muita gente que não sabe nada das mudanças climáticas.  Este fenômeno é geralmente apresentado com dados complicados. Muitos chefes de estado não se convencem que tem que intervir. Nós não podemos deixar de insistir para que os nossos dirigentes tomem decisões. Temos que estar convencidos que podemos fazer algo. Depois que as costas forem invadidas pelo mar e os campos inundados pelos rios, não haverá mais o que fazer. É fundamental que todos juntos insistam com os nossos líderes para que tomem consciência do risco e da gravidade da situação e pensem não apenas nas vantagens de curto prazo, mas em políticas de longo prazo.

Indígenas protegem melhor as florestas

(Agora é que eles descobriram isso?)

Por Marwaan Macan-Markar, da IPS

Chiang Mai, Tailândia, 19/10/2007 – Os milhões de indígenas que vivem na Ásia e no Pacifico conseguem, finalmente, reconhecimento por seu vital papel na conservação das florestas naturais.

Esta mudança de imagem marcou o tom da conferência iniciada terça-feira e encerrada ontem na cidade tailandesa de Chiang Mai com a finalidade de delinear políticas de administração florestal nesta região para os próximos 20 anos. Defensores da causa das comunidades locais vêem com bons olhos esta mudança, pois para estas as florestas são sagradas e constituem o sinal central de sua identidade. “Os indígenas têm uma relação sagrada com as florestas. As sociedades devem trabalhar com eles na hora de fazer seus planos. Potencializar os indígenas é essencial para o manejo florestal”, disse Peter Walpole, diretor-executivo da rede de organizações não-governamentais Asia Forest Network, com sede nas Filipinas.

                                          “Para proteger as florestas é preciso começar tratando com os indígenas. Não se pode passar por cima deles, como sempre aconteceu. Estas comunidades estavam ali muito antes de as florestas serem declaradas áreas protegidas”,

 disse Walpole em uma entrevista. Se este enfoque prevalecer contribuirá para tirar da pobreza as comunidades aborígines.Muitos governos da região se negam a dar a cidadania aos indígenas, disseram pesquisadores que estudam as políticas florestais. Atualmente, há entre 210 milhões e 260 milhões de indígenas vivendo na Ásia e no Pacifico, segundo a Organização das Nações Unidas. Mas, somente a Índia abordou legalmente a situação destas comunidades. Em dezembro passado, Nova Délhi apresentou projetos de lei que abordam os problemas de comunidades que vivem no cinturão tribal do centro do subcontinente do sudeste da Ásia.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), anfitriã da reunião na Tailândia, a nova ênfase nas populações aborígines reflete uma ampliação da agenda global, sobre manejo das florestas e desmatamento.

“Há uma década, a elaboração de políticas estava guiada por um enfoque estreito e convencional. Mas isto deve mudar, devido à série de pressões sobre as florestas”, disse C. T. S. Nair, economista-chefe do departamento florestal da FAO. A necessidade desta resposta exaustiva requer que os políticos compreendam o vínculo entre os indígenas e as florestas onde vivem em seus termos mais amplos, disse Nair as IPS. “por um lado, queremos saber o que os países estão fazendo a respeito de seus povos originários. Mas, somente dar-lhes poder não é suficiente. Eles têm que se beneficiar com a mudança”, enfatizou. Nesse sentido a FAO está aprovando apelos para que sejam construídas instituições locais para apoiar os grupos indígenas. “Eles precisam de estruturas estáveis e confiáveis que os protejam da rápida mudança que impacta o setor florestal devido à globalização”, disse Nair.

A conferência desta semana reuniu 250 participantes de 39 países seu lema foi “O futuro das florestas na Ásia e no Pacifico, panorama para 2020”, quase uma década depois do primeiro estudo a respeito na Ásia-Pacifico, apresentado em 1998. O debate sobre a ampliação da agenda florestal esteve moldado pelos acontecimentos e debates que aconteceram desde então. As ameaças e novas pressões sobre as florestas vão desde o desmatamento e a degradação até à mudança climática, o comércio madeireiro em expansão e o turismo. Atualmente, a cobertura florestal do mundo é calculada em 3,9 bilhões de hectares, cerca de 30% do total de terras. A região Ásia-Pacífico concentra aproximadamente 700 milhões de hectares.

“Como os países manejam suas florestas se tornou uma preocupação internacional, devido ao amplo impacto do desmatamento e à degradação florestal sobre o clima e os recursos hídricos”, disse Jagmohan Maini, ex-coordenador do Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, em seu discurso inaugural da conferência. Segundo Jan Heino, diretor da divisao florestal da FAO, o comércio de produtos florestais acompanhou o aumento do intercâmbio mercantil mundial nas últimas décadas. O valor do comércio global passou de quase US$ 2 bilhões em 1983 para US$ 10 bilhões em 2005, disse Heino, acrescentando que nesse mesmo período o comércio de produtos florestais cresceu de US$ 50 bilhões para US$ 260 bilhões. A demanda deixou uma gigantesca marca na cobertura florestal de todo o continente asiático.

A região Ásia-Pacifico “perdeu 10 milhões de hectares de florestas nos últimos 15 anos, em grande parte na campanha para abastecer a crescente demanda por produtos agrícolas e florestais”, alertou a FAO. “Há pouco tempo surgiram novas ameaças às florestas na campanha para desenvolver recursos bioenergéticos de cultivos, como a palma”, acrescentou a FAO. Mas, até agora, os testemunhos visuais de semelhante mudança e devastação foram deixados de lado devido ao seu fraco status econômico e à sua falta de poder como eleitores políticos. “As comunidades indígenas apenas foram deixadas mais pobres por causa da má qualidade das florestas. A enorme exploração dos recursos florestais teve impacto severo neles”, disse Walpole.

(Envolverde/ IPS)

Resgatar o que perdemos – Dez Pontos Cruciais

   
Por Leonardo Boff
Durante a Eco-92 no Rio de Janeiro, 1600 cientistas entre os quais havia 102 Prêmio Nobel de 70 paises lançaram o documento Apelo dos cientistas do mundo à humanidade . Ai diziam:”Os seres humanos e o mundo natural seguem uma trajetória de colisão. As atividades humanas desprezam violentamente e, às vezes, de forma irreversível o meio ambiente e os recursos vitais. Urge mudanças fundamentais se quisermos evitar a colisão que o atual rumo nos conduz”. Foi uma voz pronunciada no deserto. Mas agora, no contexto atual, quando os dados empíricos apontam as graves ameaças que pesam sobre o sistema da vida, elas ganham atualidade. Não convém menosprezar o valor daquele apelo.
Podemos alimentar duas atitudes face à crise ecológica: apontar os erros cometidos no passado que nos levaram à presente situação ou resgatar os valores, os sonhos e as experiências que deixamos para trás e que podem ser úteis para a invenção do novo. Prefiro esta segunda atitude. Por isso, importa fazer uma reescritura do momento presente, elencando mais que aprofundando dez pontos cruciais.
O primeiro é resgatar o princípio da re-ligação: todos os seres, especialmente, os vivos, são interdependentes e são expressão da vitalidade do Todo que é o sistema-Terra. Por isso todos temos um destino compartilhado e comum.
O segundo é reconhecer que a Terra é finita, um sistema fechado como uma nave espacial, com recursos escassos.
O terceiro é entender que a sustentabilidade global só será garantida mediante o respeito aos ciclos naturais, consumindo com racionalidade os recursos não renováveis e dar tempo à natureza para  regenerar os renováveis.
O quarto é o valor da biodiversidade pois é ela que garante a vida como um todo pois propicia a cooperação de todos com todos em vista da sobrevivência comum.
O quinto é o valor das diferenças culturais, pois todas elas mostram a versatilidade da essência humana e nos enriquecem a todos, pois tudo no humano é complementar.
O sexto é exigir que a ciência se faça com consciência e seja submetida a critérios éticos para que suas conquistas beneficiam mais à vida e à humanidade que ao mercado.
O sétimo é superar o pensamento único da ciência e valorizar os saberes cotidianos, das culturas originárias e do mundo agrário porque ajudam na busca de soluções globais.
O oitavo é valorizar as virtualidades contidas no pequeno e no que vem de baixo, pois nelas podem estar contidas soluções globais, bem explicadas pelo efeito borboleta.
O nono é dar centralidade à equidade e ao bem comum pois as conquistas humanas devem beneficiar a todos e não como atuamente,  a apenas 18% da humanidade.
O décimo, o mais importante, é resgatar os direitos do coração, os afetos e a razão cordial que foram relegados pelo modelo racionalista e é onde reside o nicho dos valores.
Estes pontos representam visões humanas que não podem ser desperdiçadas, pois incorporam valores que poderão alimentar novos sonhos, nutrir nosso imaginário e principlamente fomentar práticas alternativas. Somos seres que esquecem e recordam e que sempre podem resgatar o que não pôde ter oportunidade no passado e dar-lhe agora chance de realização. Por aí, quem sabe, encontraremos uma saida para a crucificante crise atual.
Fonte: www.leonardoboff.com
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