Globalização… Para alguns

Bangladesh

Países menos desenvolvidos não se beneficiam da globalização

 Esta semana estou triste.  O Ciclone que arrasou Bangladesh, com ventos de até 250 Km/h, me fez refletir sobre um texto que li, há algum tempo, que fala sobre os “Condenados ou Malditos da Terra”, numa referência aos Países mais pobres do Mundo, uma espécie de lista em que é preciso mergulhar fundo na miséria para ingressar nela.  Num mundo globalizado, que corre contra o tempo, tentando prever e deter as mudanças climáticas, que vão afetar de alguma forma a vida de bilhões de pessoas, em todos os continentes, eu hoje me pergunto: É possível indignar-se, tanto e tão definitivamente, com a repetição dessas tragédias anunciadas, a ponto de exigir-se dos países ricos que protejam esses povos, muito depois que os interesses comerciais ali havidos já estarem extintos?  (leia-se colonização e exploração extrativista).

Bangladesh é um País entre rios. Nascido no delta dos rios Ganges e Brahmaputra, depois de anos de colonização inglesa e instabilidades, na partilha política que deu origem ao Bangladesh, os monumentos ficaram na Índia, à exceção de um punhado, espalhado pelo Paquistão. O grande porto de Calcutá, que facilitaria a exportação das poucas produções nacionais – juta, couros e chá – ficou do lado indiano. A língua e, sobretudo, a política e o muro silencioso da religião, com hindus de um lado e muçulmanos do outro, acabaram por dividir muito mais do que fatores geográficos como rios ou cadeias de montanhas. O que sobrou em Bangladesh? Eu diria que sobrou gente.  Um dos países mais populosos do mundo, com mais de 1000 pessoas por km² – é impossível trafegar por mais de 300 metros sem encontrar uma aglomeração de pessoas –  Estima-se 130 milhões de habitantes, podendo ser 150 milhões. Uma população quase igual à do nosso País, no espaço de 144.000 Km². Para se ter idéia, caberiam aproximadamente 59 Bangladesh’s dentro do Brasil.

“Enquanto alguns países se integram e prosperam, outros ficam mais marginalizados e isolados”, alertou a diretora do escritório da ONU para os países menos desenvolvidos, os países em desenvolvimento sem litoral e os pequenos Estados insulares em desenvolvimento, Harriet Schmidt.   

Esta é a triste realidade dos Países Menos Desenvolvidos. “Enquanto a globalização permitiu, nos últimos 30 anos, ampliar o comércio, aumentar o rendimento econômico e criar uma riqueza global sem igual, os LDC não conseguiram se beneficiar dela”  De acordo com critérios estabelecidos pela ONU, 50 países figuram na categoria de LDC – Least Developed Countries –  países menos desenvolvidos –  25 a mais do que em 1971.  A maioria está na África, mas também constam do relatório nações de Ásia, Oceania e Caribe (apenas o Haiti). A lista inclui Afeganistão, Bangladesh, Eritréia, Etiópia, Gâmbia, Sudão e Mauritânia. Estes países concentram 12% da população mundial e menos de 2% do investimento global direto – a maioria nos setores de hidrocarbonetos e mineração. A situação é ainda mais alarmante no âmbito comercial. A participação dos LDC nas exportações mundiais caiu de 3%, nos anos 50, para 0,7%, na presente década, enquanto que em matéria agrícola essa redução foi de 3,3% para 1,5%, entre os anos 70 e 90.  

Fatores “domésticos” são apontados como responsáveis por impedir que os LDC tirem proveito da globalização, entre eles o analfabetismo, a deficiência ou falta de infra-estrutura, explosão urbana e a desertificação.  

O ex-presidente tanzaniano Benjamin Mkapa acredita que a globalização, regida por instituições fundadas pelos vencedores da Segunda Guerra Mundial, teve como objeto e resultado “reforçar a dominação econômica e geopolítica do Norte e preservar seus interesses“. “Eu fiquei menos convencido de que a comunidade internacional, em particular o mundo rico industrializado, seja séria e decidida a cumprir suas promessas (…) de apoiar o desenvolvimento das populações mais pobres da humanidade”, criticou. Sua constatação encontra eco nas declarações do turco Kemal Dervis, à frente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). “Os avanços foram muito fracos, se não nulos”, avaliou. “É frustrante ver aqueles que exaltam o livre-comércio e o mercado liberal tomarem, às vezes, as medidas mais radicalmente protecionistas que bloqueiam completamente todas as oportunidades para os países em desenvolvimento”. De acordo com a presidente da Assembléia-Geral da ONU, Sheikha Haya Rashed Al Khalifa, em referência aos Objetivos do Milênio estabelecidos pelas Nações Unidas em 2000 para combater a fome e a pobreza e àqueles fixados para estes países para o decênio 2001-2010, “os LDCs têm poucas chances de atingir nas datas previstas seus objetivos de desenvolvimento internacional”.

A lista dos países menos desenvolvidos, com menores chances de desenvolvimento, são, em sua maioria, aqueles mesmos países espoliados no passado por colonizadores, hoje chamados, Países desenvolvidos.   

Alguém tem alguma idéia sobre  quem deve ajudar os LDCs à sobreviver, além das migalhas atiradas por eficientes helicópteros, em ajuda “humanitária”?   

Minhas preces e indignação por Bangladesh e mais 49 LDCs, cujo destino parece ser o sofrimento, enquanto o nosso parece ser a indiferença.

 familia.jpgCláudia Costa

Anúncios

De abelhas e Esperanças

     Abelhas Jata�Eu li em diversos lugares que as Abelhas estão desaparecendo de alguns cantos do Planeta. Isso me assustou. Porque junto dessas informações, vinha a sombria afirmação atribuída à Einstein, de que “quando as abelhas desaparecessem do cenário humano, a nossa espécie teria apenas mais quatro anos de sobrevivência”. Os cientistas começaram a buscar respostas e apareceram mil e uma teses, das mais críveis às mais bizarras e nenhuma, até o momento, parece haver respondido completamente à pergunta. Onde estão indo parar as abelhas?

Pus minhas barbas de molho e volta e meia procuro consultar matérias sobre o “sumiço das abelhas” para ver se os cientistas já conseguiram encontrar alguma resposta.

Há alguns dias atrás encontrei abelhas… no quintal de minha casa! Uma colmeiazinha minúscula, abelhas filhotes, pequeninas, esvoaçando sem muita organização e eu logo me lembrei do assunto e pensei: Ora, ora, então, pelo menos aqui no Brasil, as abelhas ainda andam a fazer suas colmeias! E achei que isso poderia ser interessante para algum pesquisador, afinal, por aqui, há rumores de sumiço das “apis melliferas” (abelhas produtoras de mel) . Para onde ligar? Quem se interessaria por abelhas no Brasil?

Pensei, pensei e resolvi ligar para a Universidade Rural do Rio de Janeiro, uma conceituada e respeitada Universidade que forma biólogos, veterinários. Alguém ali haveria de se interessar por Abelhas! Lá descobri, depois de ligar insistentemente, que há pessoas interessadas em abelhas. Mas essas pessoas não possuem as roupas adequadas para a manipulação segura, nem tampouco transporte para deslocar-se até fora do bairro de Itaguaí, onde fica a referida Universidade.

Me informaram também, que é precária a estrutura para pesquisas e que eu deveria pagar a um estagiário para que ele viesse até minha casa, remover sem matar, as abelhas e sua colmeia. Argumentei que as abelhas estavam desaparecendo no mundo, daí minha preocupação em mantê-las vivas e seguras em alguma floresta ou sítio, mas não obtive sucesso. A pessoa que me atendeu disse que já “doa” parte de seu salário para o Governo, comprando à própria custa, material para que os alunos possam manter suas pesquisas e que não poderia fazer mais esse sacrifício. Disse que sentia muito mesmo, mas que eu deveria procurar a Defesa Civil ou os Bombeiros.

Por estes fui informada de que há uma Lei que proíbe matar abelhas, já que elas estão ameaçadas de extinção. Mas eu não queria MATAR ABELHAS. Eu justamente queria removê-las em segurança, argumentei. Pior ainda! foi o que me respondeu o funcionário da Defesa Civil (onde é que já CIVIL?) Se eu não queria a morte das abelhas não deveria estar ligando para lá e sim para um apicultor. Disse que eu deveria ligar para os Bombeiro que eles, sim, deveriam ter o telefone de algum apicultor.

As abelhas ficaram e ficaram também algumas perguntas difíceis de calar.

Fala-se em Aquecimento Global e em Mitigação dos Impactos negativos que aquele certamente causará. Fala-se em elevação dos oceanos, em períodos de estiagem e seca e no aumento do desequilíbrio biológico, por conta do desmatamento, algumas espécies predadoras de outras, acabam morrendo e algumas crescem descontroladamente, causando doenças e problemas para as sociedades urbanizadas. A pergunta que não quer calar é: Se nossas Secretarias de Meio Ambiente, nossas Defesas Civis, Nossos Ministérios, não estão preparados para capacitação de pessoal para remover colmeias em segurança, se as roupas especiais, necessárias ao manejo de abelhas, na Universidade Rural estão RASGADAS, impossibilitando o atendimento fora dos muros da Universidade… Para quem vamos apelar se algo sério de verdade acontecer? E para quando será isso? Quando é que vamos parar de falar em Meio Ambiente e Aquecimento Global e vamos realmente começar a agir preventivamente, capacitando, preparando, construindo, reflorestando, reequilibrando o Meio Ambiente? Depois da Copa de 2014?

Nunca se falou tanto em Proteção Ambiental, defesa das espécies, porém eu temo que seja em grande parte, a mesma falácia que sempre permeou as ações de governos em nosso País que só agem quando o “leite” já está derramado.

A Esperança é que, as abelhas não estejam desaparecendo, mas sim, se mudando, para longe dos pesticidas, dos agrotóxicos, das torres de telefonia celular e se for esse o caso, elas podem ficar com o meu quintal.

O Homem terá que aprender que não se pode comer dinheiro, nem votos.

Deixo um vídeo colhido no Youtube, postado por um amante de melliferas, benéficas, fantásticas Abelhas!

Conheçam, mostrem aos seus filhos e amem, antes que elas acabem.

Está mais do que na hora de pararmos com as respostas simplistas aos nossos filhos. Abelha não “serve apenas” para fazer mel e produzir cera!

Abelhas – Polinizadora de mais de 90 espécies de frutas, carrega a floresta nas patas, em seu vôo, vai espalhando as sementes e o pólen, de flor em flor, fazendo a fecundação entre flor macho e fêmea. Mas isso, já é outra história. Sem alarmismos, deixe as abelhas viverem, em paz, pelo bem do Planeta. Pelo nosso bem. Vejam o vídeo e aprendam um pouquinho mais sobre as nossas melhores amigas. Abelhas.

Para quem quer saber mais, visite o site da EMBRAPA

http://sistemasdeproducao.cnptia.embrapa.br/FontesHTML/Mel/SPMel/racas.htm

Ps: Hoje, dia 24 de novembro, depois de muito pesquisar, descobri que as abelhas que estão morando no meu quintal, são da espécie Jataí, abelhas brasileiras, inofensivas, com um ferrão atrofiado e que, se Deus quiser, vão continuar vivendo em paz, com minhas flores, frutos e os passarinhos.

 

Veja também “Entendendo a importância das Abelhas”

Setor de Transportes vai tentar reduzir emissão de poluentes

Programa ambiental do setor de Transportes busca contribuir para redução das emissões de CO2

Mônica Pinto / AmbienteBrasil

No Brasil, o setor de transporte é o segundo maior emissor de CO2, com 9% do total, montante liderado pelas queimadas e pelo desmatamento, que respondem por 75% das emissões de gases causadores de efeito estufa. No âmbito do transporte, o principal emissor de CO2 (com 88% do total) é o modal rodoviário.Estes dados são da Confederação Nacional do Transporte – CNT – que, com base neles, investiu em um programa meritório, batizado de Despoluir. “O aquecimento global deixou de ser apenas uma ameaça e hoje é uma realidade que torna necessária a imediata mobilização de todos, indivíduos, comunidades, nações, governos, entidades e empresas, inclusive do setor de transporte, para minimizar as graves mudanças climáticas em curso”, disse a AmbienteBrasil a coordenadora de Projetos Especiais da CNT, engenheira Marilei Menezes.

O programa envolve seis projetos. O primeiro, já em andamento, é o de Redução da Emissão de Poluentes pelos Veículos, que compreende, entre outras ações, o equipamento de unidades móveis e postos fixos de inspeção veicular voltadas para o atendimento de empresas de transporte e autônomos. Essas unidades já foram enviadas às federações de transportadores dos 27 estados do país.

Nesses locais, as empresas e os caminhoneiros autônomos são estimulados a submeterem seus veículos à aferição do opacímetro, um instrumento portátil utilizado para medição da quantidade de material particulado (fumaça preta) emitido por veículos a diesel.

O equipamento é montado no escapamento do veículo, para medição de fumaça através da absorção da luz. O procedimento transcorre conforme os padrões estabelecidos pelo Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), criado pelo Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama) por meio de resoluções que estabelecem diretrizes, prazos e padrões legais de emissão admissíveis para as diferentes categorias de veículos automotores, nacionais e importados.

“Com a aferição dos veículos, consegue-se reduzir a contaminação atmosférica, através da busca dos limites máximos de emissão”, explica Marilei. Além disso, segundo ela, o método fornece um bom indicativo do estado de manutenção do conjunto do motor, bomba e bicos injetores, regulagem do ponto de injeção e filtros de ar e combustível.

Ela informa que a adesão das empresas tem sido bastante satisfatória, sobretudo porque a estratégia funciona agregada ao Projeto de Aprimoramento da Gestão Ambiental nas Empresas, Garagens e Terminais de Transporte, que começa a valorizar a gestão ambiental em todo o setor, incentivando ações de certificação, regulação e capacitação ambiental.

Parte dessa meta é cumprida por meio dos projetos Caminhoneiro Amigo do Meio Ambiente, Taxista Amigo do Meio Ambiente e Trabalhador em Transporte Amigo do Meio Ambiente, cujo objetivo é fazer, destes três públicos específicos, através da educação ambiental, disseminadores de boas práticas.

Essa saudável consciência em prol do desenvolvimento sustentável ganha especial significado quando se observa seu potencial alcance – a CNT engloba 31 federações, 348 sindicatos e 32 associações; um universo que compreende 146 mil empresas, 733 mil autônomos e 2,5 milhões de trabalhadores, que juntos geram cerca de 6,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.

Biocombustíveis

Segundo Marilei, a CNT tem procurado acompanhar a disponibilidade de energias mais limpas, avaliando a garantia de abastecimento, de que as indústrias terão plena capacidade de processamento e de que haverá logística para a distribuição dos novos combustíveis.

“Com a devida cautela, a CNT está incentivando o uso de biocombustíveis e outros combustíveis menos poluentes, pelos transportadores, de maneira que possamos forçar a ampliação da cadeia de produção e distribuição dessas energias mais limpas”, diz ela.

O objetivo do segundo projeto do Despoluir – Incentivo ao Uso de Energia Limpa pelo Setor Transportador – é justamente mostrar as vantagens econômicas, sociais, ambientais e, sobretudo, as operacionais do uso de combustíveis alternativos.

As empresas e os caminhoneiros autônomos interessados podem ter seus veículos aferidos gratuitamente. Para maiores informações, devem entrar em contato com a CNT pelo e-mail despoluir@cnt.org.br ou pelo telefone 0800-7282891.

Notícias de Arrepiar …

Murilo Alves Pereira
Agência FAPESP
25/10/2007

Manchetes sensacionalistas sobre o aquecimento global chamam a atenção das pessoas para o tema, mas provocam arrepio na comunidade científica.

Catastrofismo

“O catastrofismo feito pela mídia é preocupante, pois tira a esperança das pessoas. Para que vão se preocupar em fazer algo se o futuro já é incerto?”, disse José Antonio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O meteorologista foi um dos debatedores da conferência “Mudanças Climáticas” durante o 2º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, realizado em Porto Alegre.

Cobertura irregular

Segundo Marengo, a cobertura da imprensa brasileira sobre o aquecimento global tem ocorrido de forma cíclica, nos últimos tempos acompanhando especialmente a divulgação dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC, na sigla em inglês) – que dividiu com o ex-vice-presidente norte-americano Al Gore o Prêmio Nobel da Paz de 2007.

“As reportagens vêm em pulsos. Quando houve o furacão Katrina foram três dias falando sobre isso, depois parou”, disse à Agência FAPESP, sugerindo que a imprensa mantenha um fluxo contínuo de informações sobre o tema.

Equívocos conceituais

O pesquisador criticou a forma como alguns veículos de comunicação chamaram a atenção para o aquecimento global, apelando para imagens como a de um urso polar perdido em um pequeno bloco de gelo. “O Brasil, por exemplo, tem outras representações para os dilemas tropicais, como as hipóteses da ?savanização? da Amazônia ou da desertificação do semi-árido nordestino”, afirmou.

Os equívocos conceituais de muitas matérias também foram alvos de críticas. Segundo o glaciólogo Jefferson Cárdia Simões, professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a mídia confunde termos distintos como aquecimento global, mudanças climáticas, efeito estufa e camada de ozônio.

Derretimento das calotas polares

“Ainda leio na imprensa que o derretimento da calota polar vai aumentar o nível no mar”, disse. Segundo ele, a mídia não distingue diferenças entre o gelo da Antártica e do Ártico – o ‘manto de gelo?, formado pelo acúmulo da neve precipitada no continente antártico é diferente do mar congelado comum ao ártico.

O aumento do nível do mar só ocorreria se as grandes geleiras da Antártica e da Groenlândia derretessem, mas o gelo marítimo do pólo Norte não contribui para isso. “É um conceito simples de física. Pelo princípio de Arquimedes, o gelo em suspensão no líquido, se derreter, não elevará o nível da água”, destacou.

Gelo no topo das montanhas

Por outro lado, a Antártica representa apenas 0,08% do gelo que está derretendo no mundo – a maior parte da perda de gelo ocorre no topo das montanhas. “A visão que impera é que o derretimento das calotas polares vai elevar o nível do mar. Os números são absurdos e chegam a 70 metros, que representa a elevação do nível se todo o gelo do mundo derretesse, mas isso jamais ocorreu na história da Terra”, disse.

Para Simões, falta aos jornalistas conhecimento sobre como ocorre o “fazer científico”. A imprensa também não diferenciaria publicações avaliadas por pares daquelas que representam “opiniões pessoais”. “É preciso pesar as fontes quando for dado espaço para esse ou aquele cientista”, afirmou.

A ciência não é perfeita

Mas a ciência não é perfeita e nem pode ser apresentada como tal, apontou o glaciólogo em tom de mea-culpa. “O IPCC faz previsões e é arriscado tratá-las como verdades absolutas. Se essas previsões não ocorrerem, o público pode deixar de acreditar na ciência”, disse.

De acordo com os presentes na conferência na capital gaúcha a comunidade científica entende quais são as dificuldades da imprensa nas matérias sobre o aquecimento global. Segundo o jornalista Ulisses Almeida Nenê, do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul, os pesquisadores deveriam usar sua experiência de modo a facilitar a comunicação com a imprensa, utilizando uma linguagem mais acessível.

“Os cientistas se preocupam com a própria pesquisa, mas não pensam em como ajudar a imprensa na divulgação desses estudos”, disse. Surge, então, um grande desafio para os jornalistas: despertar o interesse na população sobre questões ambientais e divulgar as pesquisas com precisão.

Banalização do aquecimento global

Segundo Almeida Nenê, a saturação de matérias sobre o aquecimento global na imprensa nos últimos meses pode provocar a banalização do tema, como ocorreu com a questão da violência. Para justificar a continuidade do tema na mídia, é preciso buscar aspectos voltados à realidade local ou a pesquisas específicas e ainda não cobertas pela mídia.

“Hoje, o interesse pela questão ambiental tem muito fogo de palha. Há pouco compromisso dos atores. As empresas de mídia deveriam se engajar de verdade”, disse. Para ele, a união entre jornalistas e cientistas melhoraria a comunicação da ciência na mídia. 
 

A Quem interessa o Etanol?

biocombustibles.jpg“Os subsídios para o etanol apontam mais a garantir os votos dos poderosos grupos de pressão agrícolas do que em obter benefícios ambientais”

Por Stephen Leahy, da IPS

Toronto, 24/10/2007 

 Novos estudos revelam que os milhares de milhões de dólares investidos nos Estados Unidos e na Europa para promover os biocombustíveis são uma forma de subsidiar corporações agroindustriais, em lugar de uma resposta efetiva contra o aquecimento global. Não só a maioria dos métodos para produzir combustíveis destilando certos vegetais pouco ajudam a reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa, responsáveis pela mudança climática, segundo a maioria dos cientistas, como colher as matérias-primas necessárias requer grande quantidade de água, além de fomentar o uso de pesticidas e provocar desmatamento em países tropicais, dizem esses relatórios.O auge dos biocombustíveis, impulsionado por milhares de milhões de dólares em subsídios governamentais, provocará aumento entre 30% e 40% até 2020 no preço dos alimentos, segundo o não-governamental Instituto de Pesquisa de Políticas Alimentares, com sede em Washington. O milho, a cana-de-açúcar, a soja e a palma são os principais cultivos dos quais se extrai etanol ou biodiesel. “Resumidamente, usar comida para produzir combustíveis é uma idéia estúpida”, disse à IPS Ronald Steenblik, diretor de pesquisas do Global Subsidies Initiative, do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável, com sede em Genebra. “É outra forma de subsidiar as grandes corporações agroindustriais e constitui uma manobra para desviar a atenção do problema real, que é reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa”, acrescentou.

Dois novos estudos, dos quais Steenblik é co-autor, destacam que produzir combustível a partir do milho, da soja ou da cana-de-açúcar é incrivelmente caro. Sua análise diz que o apoio governamental atingiu em 2006 US$ 11 bilhões ao ano para os países que integram a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne entre seus membros todos os países industriais. Mais de 90% desses subsídios corresponderam aos Estados Unidos e à União Européia, e, segundo o informe, provavelmente chegarão este ano aos US$ 13 bilhões ou US$ 15 bilhões. “Aumentam na medida em que a indústria se expande”, disse Steenblik.

Seria preciso gastar mais de US$ 100 bilhões por ano para alcançar uma proporção de produção de biocombustível equivalente a 25% ou 30% das necessidades do transporte. E esse valor em subsídios teria de ser mantido, já que a indústria depende deles, acrescentou. Esse investimento teria sentido se fosse obtida uma redução importante nas emissões de gases causadores do efeito estufa, mas Steenblik calcula que para produzir a quantidade de etanol necessária para reduzir o equivalente a uma tonelada de dióxido de carbono sejam bastos entre US$ 2.980 e US$ 6.240, segundo o tipo de programa de incentivos aplicado.

Vários estudos demonstram que o impacto ambiental de produzir milho, transportá-lo e convertê-lo em etanol se traduz em uma pequena redução de emissões de gases que provocam o efeito estufa em comparação com os combustíveis fósseis. E em alguns casos os resultados podem ser ainda mais desanimadores. O biodiesel obtido a partir da colza e o etanol de milho podem provocar 70% e 50% mais emissões, respectivamente, do que os combustíveis fósseis, de acordo com um trabalho publicado em setembro pelo ganhador do prêmio Nobel de Química, Paul Crutzen, da Universidade de Edimburgo, junto com seu colega Keith Smith.

Esses pesquisadores determinaram que a destilação desses vegetais libera mais que o dobro do que se supunha até o momento de oxido nitroso, um forte gás causador do efeito estufa, devido ao uso de fertilizantes que contêm nitrogênio. Cerca de 80% do biocombustível da Europa provém da colza, enquanto nos Estados Unidos se usa fundamentalmente o milho para fabricar etanol. “Provavelmente, não oferece nenhum beneficio e,de fato,estão piorando a situação”, disse Smith em declarações à imprensa.

Em janeiro, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, fixou uma meta de produção de 132 bilhões de litros de biocombustivies até 2017, mais de cinco vezes o nível atual. Esta meta deixaria várias vias fluviais desse país contaminadas e provocaria grave escassez de água em várias regiões, alertou a Academia Nacional de Ciências dos EUA. O uso adicional de fertilizantes contribuirá para a expansão de plantas aquáticas que produzem “zonas mortas” com as existentes no Golfo do México, diz o informe.

Advertências similares foram feitas pelo Instituto Internacional para Manejo da Água no Sri Lanka a respeito do crescente interesse de China e Índia nos biocombustíveis. Recomendou-se aos dois países que investissem na chamada segunda geração de tecnologia para este tipo de combustível, que se baseia na celulose e não poderá ser comercializado por vários anos.

“Os subsídios para o etanol apontam mais a garantir os votos dos poderosos grupos de pressão agrícolas do que em obter benefícios ambientais”, disse Walter Hook, diretor-exeuctivo do não-governamental Instituto para Políticas do Transporte e o Desenvolvimento, com sede em Nova Yorque.Programas mais simples e baratos, com a imposição de uma taxa para quem dirige veículos na zona central das cidades ou o programa aplicado em Paris para fomentar o uso da bicicleta reduzem as emissões de forma imediata e com um custo muito baixo, disse Hook em uma entrevista. Essa iniciativa foi colocada em prática em julho na capital francesa, com a oferta de milhares de bicicletas alugadas a um preço baixo (os primeiros 30 minutos são gratuitos). Milhões de viagens foram feitas nos primeiros 17 dias. “É assombroso. Todas as cidades deveriam pensar em fazer algo assim”, acrescentou.

Uma agência de publicidade fornece as bicicletas gratuitamente, administra o sistema e retorna para a cidade todo o lucro, além de US$ 4,3 milhões por ano em troca do controle exclusivo de todas as telas de publicidade na via pública. O especialista em transporte canadense Todd Alexander Litman demonstrou que os combustíveis mais eficientes e menos contaminantes têm como resultado o fato de as pessoas usarem mais os automóveis. “Ocorrem mais congestionamentos de trânsito, mais acidentes, aumenta o custo do estacionamento e deixa sem opções quem não tem carro”, afirmou.

Litman propõe alternativas para reduzir o tráfego entre 30% e 50% que incluem transformar as áreas urbanas em zonas mais próprias para pedestres e a criação de ciclovias. Nenhuma delas exige a produção de mais biocombustíveis. “Subsidiá-los é uma bobagem”, disse à IPS. Já o relator especial da Organização das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, Jean Ziegler, enfatizou que incrementar a produção de biocombustíveis será “um desastre total” para as pessoas que sofrem fome.

Existe o sério risco de criar uma batalha entre combustível e alimento que deixará os pobres e famintos das nações em desenvolvimento à mercê dos rápidos aumentos no preço da comida, da terra ou da água”, afirmou Ziegler ao falar em agosto na Assembléia Geral da ONU. Na próxima quinta-feira, Ziegles vai pedir às Nações Unidas que adote uma proibição por cinco anos da conversão de terras com o objetivo de dedicá-las à produção de biocombustíveis.

Apesar destas evidencias, os governos continuarão dedicando milhares de milhões de dólares para fomentar sua produção, afirmam alguns. “Raramente se deixa de lado um subsidio. Esperamos que os países cheguem a um acordo nos próximos anos”, disse Steenblik.

(Envolverde/ IPS) 

 

Concentração de CO2 tem aumento recorde

poluicao.jpg

Como se as recentes previsões do IPCC (o painel do clima das Nações Unidas) sobre o aquecimento da Terra não fossem pessimistas o suficiente, um grupo de cientistas do Reino Unido afirmou ontem que elas já estão defasadas: o aumento da concentração de gás carbônico (CO2) na atmosfera terrestre cresceu 35% desde o ano 2000 -uma aceleração sem precedentes.Isso significa que, se a tendência for mantida, todos os efeitos previstos da mudança climática se farão sentir mais cedo e de forma mais aguda.
Em estudo publicado na edição de hoje da revista da Academia Nacional de Ciências dos EUA (www.pnas.org), o grupo afirma que a taxa de crescimento do CO2 atmosférico foi de 1,93 parte por milhão (ppm) por ano entre 2000 e 2006. Nos anos 1990, essa taxa era de 1,49 ppm ao ano.

Hoje, a concentração de gás carbônico na atmosfera é de 381 partes por milhão, o que já representa um aumento brutal em relação aos níveis pré-industriais: em 1750, o nível de CO2 no ar era 280 partes por milhão. Nunca antes, nos últimos 650 mil anos, essa cifra havia sido ultrapassada.

O gás carbônico é o principal responsável pelo efeito estufa, nome dado à retenção do calor irradiado pela Terra por uma capa de gases na atmosfera. A aceleração do efeito estufa por atividades humanas, em espacial a queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo e derivados) e o desmatamento, é a principal causa das mudanças climáticas que o planeta sofre.

O novo estudo indica que a humanidade está acelerando rumo a uma concentração de CO2 considerada perigosa: a partir de 450 ppm, dizem os cientistas, será virtualmente impossível limitar o aquecimento adicional do planeta a 2C até 2100, nível considerado mais seguro.Causa tripla
A aceleração a partir de 2000 tem três causas principais. Primeiro, as emissões cresceram de forma acelerada, especialmente no Terceiro Mundo (leia-se China), que se desenvolve à custa do uso intensivo de petróleo e carvão.

Depois, a chamada intensidade energética -ou total de carbono emitido por dólar produzido no PIB- cresceu nos últimos anos. Ou seja esses países estão se desenvolvendo de forma cada vez mais suja, usando o combustível fóssil mais poluente (e barato), o carvão. Por fim, os “ralos” naturais de que a Terra dispõe para escoar o carbono produzido pela humanidade, em especial os oceanos, parecem estar esgotando sua capacidade.

“Nós não estamos no caminho em que pensávamos estar em termos do controle do aquecimento global”, disse Corinne Le Quéré, da Universidade de East Anglia (Reino Unido), co-autora do estudo. O grupo de Le Quéré analisou dados sobre o gás carbônico atmosférico obtidos a partir de 1959, e os comparou com as tendências atuais.

Eles descobriram que as projeções feitas no final dos anos 1990 subestimaram as emissões decorrentes do uso de energia em até 17%.

Em meio a tanta notícia ruim, o estudo traz um dado positivo para o Brasil: as emissões decorrentes do desmatamento na América do Sul caíram de 900 milhões para 600 milhões de toneladas de carbono por ano. Uma queda que o Brasil ameaça compensar aumentando, como tem feito, a fatia do carvão na sua matriz energética. 

Folha de São Paulo – 23/10/2007

Quando é bom parar – Reflexão

“Nada destrói mais os seculares mecanismos de equilíbrio que a natureza pacientemente estabeleceu, do que a voracidade com que abocanham-se os recursos naturais.”

Leia mais do excelente texto do Luiz Eduardo Cheida no Blog Folha Verde, da Mercedes Lorenzo

%d blogueiros gostam disto: